Celular na mão é risco na certa para motoristas, mas também para os pedestres

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Celular na mão é risco na certa para motoristas, mas também para os pedestres

Por Ana Flávia Silva, especial para a Tribuna

“Você costuma olhar o seu celular pela manhã antes ou depois de ir ao banheiro?” A frase de um documentário sobre a relação humana com as redes sociais escancara uma verdade mundial: o celular faz parte de quase todos os minutos da vida moderna, da hora em que a pessoa acorda até minutos antes de dormir (e tem gente que deixa o aparelho embaixo do travesseiro…)

No Brasil, há mais smartphones do que habitantes: são 230 milhões de celulares em uso. O único problema é que toda essa conexão pode gerar acidentes se usada nos momentos ou locais inadequados – e o trânsito é um deles. 

Transporte digital

Todo mundo sabe que não deve utilizar o celular enquanto dirige. Está no Código Brasileiro de Trânsito e até nos alertas que os próprios aplicativos de mobilidade emitem quando identificam que o motorista está em movimento enquanto digita. Mas é preciso lembrar também aos pedestres sobre essa recomendação. “Andando e olhando o celular você se distrai e não percebe o que está acontecendo à sua volta”, alerta a tenente do BPTran, Mayra Tonelli.

+ Leia mais: Eu, tu eles. A responsabilidade no trânsito é dos motoristas e também dos pedestres

Pode parecer uma dica básica: “olhe por onde anda!”, mas na prática, o aparelho nas mãos, as mensagens notificadas e até mesmo a música nos fones de ouvido são algumas distrações bastante comuns nas ruas. E esse é o principal ingrediente da imprudência, que resulta em acidentes.  É mais difícil fiscalizar ou aplicar sanções a pedestres por estarem distraídos. Não existe, inclusive, uma regra para que o pedestre seja responsabilizado por um acidente caso esteja meio “avoado”.

Mas a distração pode levá-lo a atravessar sem olhar atentamente a via ou até mesmo se colocar em situações de risco. “Se o pedestre atravessar fora da faixa, ela estando a menos de 50 metros, e causar um acidente, ele pode até mesmo responder pelos danos causados ao veículo, além de o motorista não ser responsabilizado”, afirma o advogado especialista em direito do trânsito Roberto de Faria. “É claro que isso não justifica um atropelamento que poderia ter sido evitado pelo condutor, mas é uma atitude que prejudica a posição do motorista”, reforça o consultor jurídico Cristiano Baratto. Na prática, vale a mesma dica para todas as outras ações no trânsito: pensar no outro, ter mais empatia

+ Veja também: Não bloqueie o cruzamento: a pressa é inimiga da perfeição e de um trânsito mais fluído!

Sob o olhar de quem caminha

Pedestres precisam de atenção redobradas nas ruas. Foto: Arquivo Pessoal

“Todo motorista um dia foi pedestre, ninguém nasceu com CNH, mas as pessoas esquecem disso”. O desabafo é da educadora física Thauana Padilha, que, embora tenha carteira de habilitação, não costuma dirigir. Sempre que possível, ela vai aos destinos a pé.  “Muitos motoristas têm empatia zero. Às vezes está chovendo e as pessoas nem mesmo param para a gente atravessar na faixa de pedestre. E o motorista está dentro de um carro, confortável, enquanto você está lá com o guarda-chuva na mão. Falta se colocar no lugar do outro”, pontua.

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Por outro lado, além do benefício físico da caminhada, ela também destaca momentos em que andar se torna mais rápido do que dirigir. “O trânsito tá lá, parado e você vai passando todo mundo. Quando eu trabalhava em uma academia perto de casa, eu chegava entre sete a oito a minutos andando, e se fosse de carro demoraria muito mais”. Por atuar como influenciadora nas redes sociais, ela costuma mostrar o trajeto e “conversar” com os seguidores no caminho, mas somente nos trechos em que há calçada, longe da rua. 

E se não há espaço? 

Foto de um homem usando telefone celular na rua. Foto: Marcelo Elias / Arquivo

As áreas de circulação dos pedestres devem ser mantidas em boas condições de visibilidade, higiene e segurança. Roberto de Faria recomenda que, caso um trajeto não conte com calçada adequada, o cidadão reclame seus direitos. “A responsabilidade pelas áreas de circulação dos pedestres é da administração pública, que responde de maneira objetiva”, orienta.

Thauana, por exemplo, brigou por uma faixa de pedestres na rua onde mora, a Avenida Nossa Senhora Aparecida, em Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba. “Não é uma garantia de que os motoristas vão parar, mas eu percebi que depois que a minha solicitação foi atendida aumentou o número de pessoas que param para os pedestres atravessarem. Isso educa, querendo ou não.”

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A educação, mais uma vez, também é um ponto de destaque na fala do especialista. “A nova alteração na lei de trânsito prevê o investimento do valor de multas em programas de educação. Com isso, vamos formar cidadãos melhores, que respeitem as regras de trânsito e entendam os perigos desde a base, desde a infância”. 

E o celular?

Ele não precisa ser um vilão, pelo contrário. As conexões digitais se tornaram grandes aliadas em tempos de isolamento e distanciamento social. A internet móvel também ajuda – e muito – a encurtar caminhos, desviar de congestionamentos e até orientar sobre trechos que precisam de mais atenção, no caso dos motoristas. Para os pedestres, o smartphone também é uma ferramenta interessante, seja para contar os passos ou distância percorrida, receber uma chamada urgente ou até mesmo se orientar pelo GPS.

A questão é prudência. “A tecnologia tem que ser usada a nosso favor, de forma positiva. Ela muda a nossa vida de modo geral”, avalia o coordenador de educação do Detran-PR, Michael Bogo. Então, que seja usada para mudar a vida para o bem – e aumentar a segurança de todos, não o contrário.