Instrutora cria adesivos divertidos para alertar motoristas sobre recém habilitados

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Insegurança no trânsito gera irritação e mais insegurança. O trânsito pode ser mais gentil

Adesivos divertido alertam motoristas sobre insegurança de recém habilitados

Por Ana Flávia Silva, especial para a Tribuna

O semáforo abre, o motorista à frente está distraído e você precisa chegar no trabalho em dez minutos, percorrendo um trajeto que normalmente leva 15 minutos para completar. E aí? A mão na buzina é inevitável? Para muitos, o aviso sonoro é acompanhado de xingamentos, braços gesticulando e pior: um mau humor que passa a fazer parte do dia todo.

Você nem imagina, mas no carro à frente o motorista distraído é um recém-habilitado que sempre demora um pouquinho para arrancar, por pura insegurança. A sua buzina desencadeou diversos sentimentos no outro, que deixou o carro morrer. E adivinha quem vai se atrasar ainda mais por causa disso? 

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“A pessoa que tem raiva, fica xingando, acha que todo mundo está atrapalhando, que ninguém sabe dirigir”, avalia a psicóloga de trânsito, Salete Coelho Martins. Há 15 anos ela trabalha com motoristas que têm medo de assumir o volante. E deixa claro que o principal motivo da fobia é a falta de empatia no trânsito: “o medo vem pela falta de prática, de deixar o carro morrer em uma rampa, por exemplo. Mas a preocupação, na verdade, é de errar, porque elas têm um perfil psicológico de se cobrar mais”, pondera. O pronome no feminino, “elas”, tem motivo: mais de 90% das clientes são mulheres. 

Trânsito que amedronta

O medo de uns é gerado pelo estresse de outros. Mas não é de hoje que esse estresse faz parte da rotina de muitos motoristas. Tanto que um dos vídeos mais usados no processo de formação de condutores é de 1950: o clássico da Disney “Senhor Volante”, em que Pateta é Walker, um cidadão comum, que se transforma em Wheeler, um motorista agressivo e impaciente. O desenho de mais de 70 anos atrás é extremamente atual.

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Salete relata o processo com as clientes. “Elas falam: ‘ele buzinou pra mim, está bravo comigo’ e aí vêm os sintomas da ansiedade: a boca fica seca, as mãos tremem…”. E, muitas vezes, o “Wheeler” está ao lado: o marido é que tem o perfil “raivoso” no trânsito e acaba gerando o medo na companheira. Há, inclusive, tratamento exclusivo para os “estressadinhos”: “quando eles percebem que são o gatilho para o medo da esposa, eles querem mudar, não querem mais ser assim”, diz Salete. 

Trânsito que acolhe

Se falta um incentivo para manter a calma ao volante, a instrutora Márcia Regina Carneiro ajuda. Ela criou modelos de adesivos simpáticos para os carros, com recados para apaziguar os ânimos de quem está atrás de um motorista inexperiente. “Recém-habilitada, agradeço a paciência”, “Recém-habilitada com bebê a bordo”: são algumas das frases que já circularam por mais de 700 carros em Curitiba.

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A intenção é clara: “todo mundo que para atrás e vê aquilo, já não fica pressionando aquela motorista porque não tem prática”, relata. E complementa: “Quem está dentro do carro não sabe o que acontece com o outro motorista. Qual o grau mental, a situação emocional da outra pessoa, as habilidades das outras pessoas. O recado quer provocar a empatia no outro. Fazer ele pensar ‘poderia ser eu ali”.

O trabalho das especialistas ajuda a criar uma nova geração de motoristas. Quem recebe empatia, obviamente, retribui. É a receita da gentileza que não tem como dar errado. Funciona até mesmo nos momentos em que um dos “ingredientes” já está amargo: “quando um não quer, dois não brigam. Se alguém vier com uma grosseria para cima de você, você pede desculpa, admite que não viu. Isso “quebra as pernas”. Quando você faz isso, você não dá condição de continuar uma confusão, a probabilidade de entrar em uma situação de conflito é muito baixa”, orienta Salete. 

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É claro que há uma grande diferença entre um deslize e a imprudência. Mas vale muito mais a pena deixar o estresse de lado e desviar o caminho dos “motoristas-problema” ao invés de estragar o humor de um dia todo. E, certamente, também vale muito a pena ser o motorista que promove a gentileza.

Pratique a gentileza

  • Avalie a seriedade do problema. O motorista à frente demorou para arrancar o semáforo abriu? Avise-o com uma buzinada de leve (não precisa afundar a mão nela);
  • Preste atenção. Se um motorista ao seu lado acelera para ultrapassar, dê a preferência. Talvez ele esteja atrasado ou com alguma urgência;
  • Coloque-se no lugar do outro. A empatia sempre vai bem. Você já esteve em um dia ruim e já foi um motorista inexperiente;
  • Mantenha a calma. Normalmente, o estresse surge por causa do congestionamento. Se você sair um pouco mais cedo, não vai precisar se preocupar com imprevistos no trajeto;
  • Dê a preferência. Para um pedestre, para o motorista que sai de uma vaga de garagem, para quem está tentando fazer uma baliza apertada. Se a situação fosse ao contrário, você certamente gostaria de receber essa gentileza.

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